Ainda encontro a fórmula do amor!

O moço da loja.

5 de abril 2008 , por Anônimo , 4 Comentários

Hoje acordei só, e minha casa desmoronava. Foram 2 semanas fora e, ao voltar, descobri água aparecendo misteriosamente no chão da cozinha e ao lado da privada, a torradeira não funcionava, o estabilizador queimou, a torneira do chuveiro decidiu não fechar mais ? sabe quando você gira a torneira ao máximo e, ao invés de travar, ela gira de novo?

Xinguei o mundo, respirei fundo, xinguei a mim mesma e acreditei fortemente que era tudo culpa minha: minha tristeza com suas vibrações ruins destruindo tudo a minha volta, só para me lembrar novamente: estou só, me sinto só, e vou precisar consertar tudo só.

Houve um tempo em que minha casa funcionava magicamente, ininterruptamente. Se uma lâmpada queimava, era só dizer ?a lâmpada queimou?, e ao voltar pra casa mais tarde ela acendia novamente. Vai ver meus pais emanavam energia melhor que a minha e por isso aquela casa sempre funcionava. Depois fui agraciada temporariamente pela dádiva da casa perfeita dos arquitetos. Talvez eles saibam construi-la, mas escondem esse segredo somente pra si enquanto exploram nossa ignorância de meros mortais. Quem sabe desfrutei da sorte por tanto tempo, que agora estou fadada à uma vida de vazamentos, entupimentos e infiltrações.

Elza – sempre ela – chegou pra me socorrer e me lembrar que não estou tão só assim. Essa moça que limpa minha casa, organiza minhas bijuterias, arruma minhas roupas por cor e por altura nos cabides, parece saber de tudo. Rapidamente me fez fechar o registro d?água, de cuja existência eu já havia esquecido, e identificou a causa de um dos principais problemas: o encanamento estava repleto da minha ex-cabeleira dos últimos anos. Era tanto cabelo que dava pra fazer uma peruca, e aquele emaranhado ensebado ocasionou meu primeiro sorriso do dia: ?é a prova de que eu me renovo?.

Muito cabelo depois, ainda haviam sinais de entupimento. Madame Elza me pediu um arame maior. Deve haver mais cabelo ao longo da tubulação ? ela disse. Eu, que mal sabia que havia um arame menor na minha casa, lembrei da lojinha ao lado do meu prédio. Um cubículo cheio de objetos não identificados pendurados. Lá fui eu.

Expliquei tudo pro moço escondido atrás daqueles objetos estranhos, e descobri o homem dono de todas as respostas:
?Pra torradeira funcionar, basta trocar o fuzível do estabilizador. Se quiser, traz aqui que eu troco pra você. Já no caso da torneira, você vai precisar de uma chave de grife para abrir e trocar o eixo rotatório que deve estar gasto. Melhor você trazer ele aqui antes para eu ver o diâmetro e te dar outro que encaixe. Compra também soda caústica, e se o arame não der jeito, joga um pouco que ela acaba com tudo no caminho.?

Chave de grife? Eixo rotatório? Onde essas pessoas aprendem isso tudo? E até hoje eu tinha medo de soda cáustica, e jamais compraria pra minha casa. Tantas respostas depois que me deixaram mais feliz, vejo o rosto do moço quando ele veio receber o dinheiro:
?Sabe que, em tanto tempo que você mora aí do lado e eu te vejo ir e vir, é a primeira vez que te vejo sorrindo??

Jura? Meu deus, será que sou tão mal-humorada assim? Me desculpe. Tá bom, sorrio mais, tá bom assim?
Com tanto sorriso, levei de brinde a chave de grife emprestada para tentar tirar o tal do eixo rotatório, após muitas instruções. Mas isso é coisa pra homem. Eu não tenho força. Nem Elza.

Eu sinto falta de alguém pra amar, pra cuidar, pra andar ao meu lado, dividir a vida, ir ao cinema, beijar e transar. E pra fazer por mim tudo aquilo que eu mesma odeio (ou não sei) fazer: resolver problemas mundanos de casa inclusive. Ter alguém que me completa tomou outro significado, mais real, mais palpável, mais terrestre. Acho que é disso que eu preciso.

Amanhã, o moço vem com sua chave de grife arrancar meu eixo rotatório, trocar por um novo e me permitir tomar um banho em paz. Periga eu pedi-lo em casamento. É bom ter cuidado.

Por Claire.

Publicado em 5 de abril 2008 às 12:23 AM na categoria Vida nova, coisas de mulherzinha. Você pode acompanhar as respostas a este post através de nosso feed RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou colocar um trackback no seu site.

4 Comentários to “O moço da loja.”

Comentários